Você está liderando ou apenas apagando incêndios?
A caixa de entrada cheia. Reuniões em sequência. Mensagens urgentes chegando o tempo todo. Problemas que exigem resposta imediata.
No final do dia, muitos líderes sentem a mesma coisa: trabalharam sem parar, resolveram dezenas de questões… mas a sensação é que avançaram pouco no que realmente importa.
Existe um risco silencioso nisso: quando a urgência ocupa todos os espaços, a liderança vira apenas gestão de incêndios. O mais triste disso para mim é o fato de ser uma situação comum em grande parte das empresas.
Peter Drucker, pai da administração moderna, há muito tempo já fazia uma distinção importante: eficiência é fazer bem uma tarefa, enquanto eficácia é garantir que estamos dedicando energia ao que realmente importa.
E existe uma lição curiosa sobre isso vinda das artes marciais.
Olhar para a montanha distante
O lendário samurai Miyamoto Musashi enfrentou situações em combate em que focar apenas no inimigo à sua frente poderia significar derrota imediata.
Nas artes marciais, existe um princípio chamado Enzan no Metsuke: olhar para o adversário como se estivesse olhando para uma montanha distante.
A ideia pode parecer estranha no início. Mas o objetivo não era perder foco, e sim, ampliar a percepção.
Quando a atenção sai do detalhe imediato, a visão periférica entra em ação. Você começa a perceber movimentos ao redor, padrões e possibilidades que antes estavam invisíveis.
Na luta, isso aumentava as chances de sobrevivência.
Na liderança, aumenta a capacidade de antecipação.
O perigo do hiperfoco
Daniel Goleman, autor do livro “Inteligência Emocional”, chama isso de “foco aberto”, a habilidade de ampliar a percepção para compreender o contexto completo, essencial para se tornar mais estratégico.
Líderes excessivamente presos à operação muitas vezes percebem tarde demais sinais importantes:
mudanças no comportamento dos clientes (internos e externos);
talentos desmotivados;
processos que começam a perder eficiência;
oportunidades surgindo fora do radar.
Sistemas fortes não são aqueles que tentam controlar tudo, mas sim, aqueles capazes de perceber mudanças e se adaptar rápido aos novos cenários.
Talvez o maior risco da liderança atual não seja a falta de produtividade. Talvez seja a perda da visão periférica.
Como aplicar o Enzan no Metsuke na prática
Dentre as diversas formas de aplicar na sua rotina como líder, aqui estão três movimentos simples que pode começar agora:
1. Crie um horário sem urgências: reserve uma hora inegociável da sua semana sem mensagens, reuniões ou notificações. Esse não é um espaço para resolver problemas imediatos, mas para olhar além deles. Em vez de perguntar "o que preciso resolver agora?", pergunte: "o que continua aparecendo e ainda não resolvemos na raiz?"
2. Converse sobre padrões, não apenas tarefas: na próxima reunião, tente trocar a pergunta "qual o status?" por "o que estamos começando a perceber?". Líderes estratégicos desenvolvem a capacidade de enxergar tendências, comportamentos e sinais antes que eles virem problemas maiores.
3. Delegue pequenas decisões: se tudo precisa passar por você, sua visão provavelmente ficou estreita demais, muito operacional. Liderança não significa estar presente em cada detalhe operacional, significa criar espaço para observar o cenário completo e enxergar movimentos que os outros ainda não perceberam. Para isso, é claro, precisará trabalhar a sua confiança no time e desapegar de ter resultados iguais aos que teria se você fizesse. Pode ser difícil no começo, mas isso vai desenvolver o time e te dar liberdade para ser mais estratégico.
Então aqui fica o questionamento para você. Hoje sua atenção está voltada para a "montanha distante" ou o mar de urgências ocupou completamente seu campo de visão?
Se você quiser se aprofundar nesse tópico e entender como os princípios das artes marciais se conectam com gestão e estratégia, compartilho mais disso no livro “O Dojo da Liderança”.
E a conversa não precisa parar aqui.
Se fizer sentido trocar ideias sobre liderança, dados, tecnologia ou desenvolvimento de times, me chama por aqui.
